Artigo de Roberto Rego Vieira da Rocha, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), publicado na revista GV Executivo, analisa como a inteligência cultural pode orientar a adaptação de diferentes estilos de liderança em contextos multiculturais. A partir da reflexão sobre uma trajetória de mais de 30 anos na indústria farmacêutica, o estudo mostra como diferentes realidades culturais exigem do líder capacidade de interpretar contextos e ajustar conscientemente sua forma de atuação.
Em ambientes multiculturais, diferenças de valores, normas sociais e expectativas sobre autoridade podem tornar decisões de liderança mais complexas. Práticas consideradas eficazes em uma cultura podem produzir efeitos diferentes em outra, exigindo do executivo mais do que domínio técnico ou conhecimento de modelos tradicionais de liderança.
O artigo argumenta que a liderança nesses ambientes não depende da adoção rígida de um único estilo. Abordagens como liderança servidora, ética, transformacional e autêntica podem ser combinadas de acordo com as características culturais e institucionais de cada situação.
Nesse processo, a inteligência cultural funciona como uma lente para orientar as escolhas do líder. O conceito envolve dimensões cognitiva, motivacional e comportamental, relacionadas à compreensão de valores e normas culturais, à disposição para aprender e se adaptar e à capacidade de ajustar comportamentos, comunicação e exercício da autoridade.
A trajetória profissional analisada no artigo ilustra essa dinâmica. A partir de 2011, ao assumir uma posição executiva para a América Central e o Caribe, com responsabilidade por 34 países e residência na Costa Rica, o autor precisou adaptar sua forma de liderar diante de um ambiente marcado por elevada diversidade cultural.
A experiência mostrou a importância da proximidade interpessoal, da lealdade ao grupo e do senso de coletividade. A expressão “El Jefe”, utilizada para se referir ao líder, evidenciava expectativas de autoridade associadas à presença, proteção e responsabilidade direta pelas equipes. Nesse contexto, práticas relacionadas à liderança servidora, como escuta ativa, proximidade e desenvolvimento das pessoas, ganharam relevância.
Ao longo da experiência, porém, o autor identificou que a centralidade da figura do líder também poderia limitar a autonomia das equipes. O desafio passou a ser recalibrar essa dinâmica, ampliando responsabilidades individuais e estimulando maior autonomia dos gestores em uma operação distribuída por diferentes países.
Outro exemplo analisado envolve competições internas de vendas e as celebrações realizadas durante convenções anuais. Hinos, bandeiras e músicas típicas dos países das equipes vencedoras, inicialmente percebidos com ceticismo pelo autor, revelaram-se mecanismos de fortalecimento da identidade coletiva, do orgulho regional e do engajamento.
O artigo mostra, assim, que liderar em contextos multiculturais envolve um processo contínuo de leitura, adaptação e aprendizado. A inteligência cultural permite ampliar o repertório de liderança e ajustar decisões às particularidades de diferentes ambientes, preservando coerência, legitimidade e princípios éticos.