O Brasil reúne condições para se consolidar como um dos principais hubs globais de infraestrutura digital na era da inteligência artificial (IA), segundo o Estudo de Potenciais Impactos Socioeconômicos da Consolidação do Brasil como Hub Internacional de Infraestrutura Digital na Era da Inteligência Artificial, desenvolvido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), por meio da FGV Projetos, requisitado pela Scala Data Centers e a Norgás.
O estudo analisa os impactos econômicos da expansão da infraestrutura digital no país e os fatores que influenciam sua competitividade internacional. Entre os principais diferenciais identificados estão a matriz elétrica majoritariamente renovável, a posição geográfica estratégica, o tamanho do mercado interno e o crescimento da demanda por serviços de computação em nuvem e inteligência artificial.
O estudo da FGV Projetos estima que a implantação de um único data center de, incluindo a infraestrutura de inteligência artificial, mobiliza cerca de R$ 25 bilhões em investimentos totais que, dentre seus efeitos, gera aproximadamente 12.560 empregos diretos e indiretos durante a fase de construção e implantação. Desse total, cerca de 1.860 postos são permanentes, incluindo equipes de operação, manutenção e serviços de apoio ao empreendimento, deixando claro que existem transbordamentos em todos os setores da economia, ou seja, os efeitos não são concentrados apenas em data centers. Esse efeito multiplicador do setor supera, por exemplo, o da indústria de transformação brasileira, o que significa que cada real investido em infraestrutura digital ativa uma cadeia produtiva proporcionalmente maior do que a média industrial.
Para além dos impactos quantificados pela Matriz Insumo-Produto, a internalização do investimento gera benefícios adicionais difíceis de mensurar nos modelos tradicionais. Os custos de importação de tecnologia são altos no Brasil, assim, uma eventual internalização da cadeia de um setor que possui impactos multiplicadores tão altos, poderia ampliar os ganhos potenciais reportados acima. Além disso, existem outras cadeias ativadas quanto os ganhos do data center chegam até a população, melhorando o consumo de bens e serviços duráveis e não duráveis, incluindo os serviços atrelados aos data centers, que vão além de computação em si como, por exemplo, os serviços de saúde.
Os resultados foram obtidos por meio da metodologia de Matriz Insumo-Produto, que permite mensurar os efeitos diretos, indiretos e induzidos dos investimentos sobre diferentes setores da economia. Segundo o levantamento, os data centers devem ser compreendidos como um vetor de desenvolvimento econômico, uma vez que sua implantação e operação impulsionam segmentos como energia elétrica, construção civil, telecomunicações, logística e serviços técnicos especializados.
“A pesquisa utiliza uma modelagem de insumo-produto para capturar os efeitos diretos, indiretos e induzidos dos investimentos em infraestrutura digital, permitindo medir como esses projetos ativam cadeias produtivas inteiras. Os resultados mostram que os impactos não se concentram no setor de tecnologia, mas se disseminam por toda a economia, com efeitos relevantes sobre emprego, renda e produção”, afirma Charles Schramm, gerente executivo na FGV Projetos.
O estudo também compara o Brasil com hubs internacionais consolidados, como Virgínia (Estados Unidos), Singapura, Dubai, Japão, Portugal, Canadá e o cluster FLAP-D, formado por Frankfurt, Londres, Amsterdã, Paris e Dublin, considerando aspectos tecnológicos, econômicos, energéticos e regulatórios.
Para ampliar a competitividade do país, o estudo destaca a importância de maior coordenação institucional, estabilidade regulatória e previsibilidade energética, além do alinhamento entre a expansão do sistema elétrico e a implantação de novas cargas digitais. Também aponta que a elevada carga tributária sobre equipamentos e serviços reduz a competitividade brasileira na atração de investimentos em infraestrutura digital.
Entre as recomendações apresentadas estão políticas industriais voltadas à internalização da cadeia produtiva de hardware, reconhecimento dos data centers como atividade estruturante do setor elétrico, estabelecimento de um regime jurídico estável de incentivos fiscais e fortalecimento da coordenação regulatória entre as agendas de indústria, energia, tributação e governança digital. Instrumentos como o Redata, a redução do ICMS sobre importação, os Ex-Tarifários e as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) são apontados como mecanismos capazes de reduzir assimetrias competitivas e ampliar a atração de investimentos.
O levantamento também recomenda a criação de uma instância coordenadora envolvendo União, estados, municípios, reguladores setoriais e representantes do setor privado para conferir maior previsibilidade à expansão da infraestrutura digital no país.
De acordo com a análise, a consolidação do Brasil como hub internacional de infraestrutura digital dependerá da capacidade de estruturar uma agenda coordenada que fortaleça o ambiente de negócios, amplie a conectividade e ofereça segurança para investimentos de longo prazo. Em um contexto de crescimento acelerado da demanda global por infraestrutura voltada à inteligência artificial, países capazes de reunir essas condições estarão mais preparados para atrair investimentos, desenvolver cadeias produtivas e ampliar sua participação na economia digital.
O estudo está disponível aqui.