A Diretoria de Comunicação e Marketing da Fundação Getulio Vargas (FGV DICOM) promoveu, em edições realizadas em São Paulo e Rio de Janeiro, nos dias 11 e 13/8 respectivamente, o 8º Seminário para Imprensa Internacional, dedicado a analisar as perspectivas para as próximas eleições e os rumos políticos e econômicos do país. O encontro reuniu professores e pesquisadores de diversas áreas para discutir os fatores determinantes do pleito nacional, como a consolidação da polarização política, o protagonismo orçamentário do Congresso Nacional, as transformações no perfil do eleitorado, os impactos da conjuntura geopolítica global, a atuação da Justiça Eleitoral e os desafios da política macroeconômica.
Da política interna à geopolítica: os desafios da diplomacia brasileira
Em São Paulo, o professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), Claudio Couto, destacou para os convidados da imprensa internacional, a persistência da bipolarização no cenário político nacional, em que dois grandes blocos de eleitores mantêm suas preferências bastante consolidadas. O docente ressaltou que uma das transformações mais marcantes na estrutura de governabilidade brasileira a partir de 2015 foi o ganho de poder orçamentário e político por parte do Legislativo. Segundo a análise, a aprovação de emendas impositivas reduziu a capacidade de barganha tradicional do Poder Executivo e fortaleceu a autonomia de deputados e senadores frente às diretrizes governamentais, configurando uma dinâmica de governo congressual em que o Parlamento assume o protagonismo na definição da agenda legislativa.

A edição de São Paulo contou com a presença dos professores Cláudio Couto (FGV EAESP) e Carolina Moehlecke (FGV RI)
Couto detalhou o perfil dos eleitores indecisos em disputas nacionais, observando maior concentração entre parcelas de renda e escolaridade intermediárias, além de segmentos específicos da população, como mulheres e setores religiosos. No que tange à dinâmica eleitoral para o Poder Legislativo, o cientista político ressaltou que as redes regionais de prefeitos e vereadores continuam sendo o principal elemento preditivo para o desempenho de candidaturas à Câmara dos Deputados, enquanto as disputas para o Senado Federal permanecem como as mais incertas e sujeitas à pulverização de votos no sistema de maioria simples.
Já a professora da Escola de Relações Internacionais (FGV RI) Carolina Moehlecke enfatizou que o cenário geopolítico global passa por profundas transformações, marcadas pela rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China, pelo recrudescimento do protecionismo comercial e pela disputa pelo controle de cadeias globais de minerais críticos. De acordo com a docente, a polarização política interna faz com que a política externa passe a ser interpretada sob lentes ideológicas pela população, desafiando a tradição diplomática brasileira de pragmatismo e neutralidade ativa. Moehlecke pontuou que o retorno do protecionismo na economia global limita o alcance de acordos comerciais tradicionais e exige do Brasil extrema cautela na condução de suas parcerias internacionais, demandando equilíbrio institucional para evitar que rusgas diplomáticas tragam prejuízos ao comércio e à atração de investimentos produtivos.
Comportamento eleitoral, tecnologia e economia: os novos desafios do Brasil
No evento realizado no Rio de Janeiro, o professor da Escola de Ciências Sociais (FGV CPDOC), Jairo Nicolau, abordou a evolução da sociologia eleitoral no país ao longo das últimas duas décadas. Nicolau apontou mudanças demográficas estruturais, como o envelhecimento do eleitorado, a maior presença e nível de escolaridade das mulheres e a consolidação do eleitor com ensino médio completo como perfil padrão da população votante. O pesquisador sublinhou o surgimento de novas clivagens eleitorais no comportamento do eleitorado a partir do pleito de 2018, incluindo diferenças significativas de voto por gênero, raça e pertencimento religioso. Ele assinalou que o voto feminino e a movimentação política nos grandes centros metropolitanos da Região Sudeste continuam sendo variáveis decisivas para a definição dos resultados eleitorais em âmbito nacional.

A edição do Rio de Janeiro teve a participação de Jairo Nicolau (FGV CPDOC), Marco Aurélio Ruediger (FGV Comunicação), Silvana Batini (FGV Direito Rio) e Rafael Chaves (FGV EPGE)
O diretor da Escola de Comunicação, Mídia e Informação (FGV Comunicação), Marco Aurélio Ruediger, apresentou dados sobre a dinâmica das redes sociais na disputa política. Ruediger demonstrou que, embora o engajamento e a capacidade de mobilização digital variem entre as diferentes correntes políticas, os temas internacionais e geopolíticos ganharam uma relevância sem precedentes nos ambientes virtuais. O especialista alertou para a necessidade de o debate público absorver pautas voltadas para o futuro da sociedade, como os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, a reforma educacional e a produtividade econômica. Segundo Ruediger, a proliferação do debate em plataformas virtuais exige metodologias robustas de análise de dados para acompanhar as transformações na opinião pública.
A professora da Escola de Direito do Rio de Janeiro (FGV Direito Rio), Silvana Batini, analisou a atuação e as competências da Justiça Eleitoral no processo político brasileiro, destacando a alta judicialização do pleito e os desafios institucionais para o próximo ciclo de votação. Batini abordou a recente regulação editada pelo Tribunal Superior Eleitoral para o uso de inteligência artificial e tecnologias de manipulação audiovisual nas campanhas, ressaltando as complexidades técnicas e operacionais para a fiscalização em tempo real. A docente destacou ainda a intensificação do combate à violência política de gênero e a consolidação de mecanismos jurídicos para impedir a infiltração do crime organizado e de facções armadas nas candidaturas políticas, buscando garantir a integridade do pleito e a equidade das disputas.
Por fim, o professor da EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças (FGV EPGE), Rafael Chaves, encerrou o seminário com um diagnóstico sobre a trajetória econômica do Brasil no presente século. Chaves lembrou que o crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro nas últimas duas décadas situou-se em 2,3 por cento, patamar inferior à média mundial de 3 por cento registrada no mesmo período. O economista analisou a tensão entre a política monetária de controle inflacionário executada pelo Banco Central e o ritmo dos gastos públicos, sublinhando que a sustentabilidade fiscal e a trajetória da dívida pública são elementos cruciais para a estabilidade econômica de longo prazo. Chaves concluiu reforçando a urgência de o país focar em reformas estruturais que estimulem o ganho de produtividade, a qualidade da educação e o investimento produtivo como pilares para o desenvolvimento sustentável.
Em sua oitava edição, o Seminário para a Imprensa Internacional consolidou-se como um espaço fundamental de análise e debate qualificado sobre a conjuntura brasileira para correspondentes de veículos estrangeiros. A iniciativa, liderada pela FGV DICOM, reafirma o compromisso institucional da FGV em conectar o conhecimento acadêmico gerado por seus pesquisadores ao ecossistema global de notícias, oferecendo leituras aprofundadas sobre as transformações políticas, sociais, jurídicas e econômicas que moldam o futuro do país.