Por Enzo Bernardes, de Brasília
A implementação do novo modelo da reforma tributária depende de 2 pilares que precisam caminhar juntos: a estratégia de negócio e a tecnologia. Essa foi a avaliação de Jean Soares, CEO da empresa de consultoria fiscal Taas Consulting, durante participação no podcast Tax Capital, do Portal da Reforma Tributária.
“A reforma tem 2 grandes desafios: o desafio estratégico de negócio e o desafio tecnológico. Até porque o próprio Fisco vislumbra isso. Essa reforma só foi possível porque nós tivemos um Fisco que vem estruturando, pavimentando uma estrada que começou lá no projeto Sped [Sistema Público de Escrituração Digital], que logo mais vai completar seus 20 anos de projeto. Então essa base tecnológica que já estava sendo pavimentada foi, considerando do ponto de vista de estrutura, o que viabilizou a reforma“, afirmou.
Jean disse que essa evolução tecnológica criou as condições para que a reforma pudesse ser implementada e ao mesmo tempo obriga as empresas a evoluírem seus próprios ambientes tecnológicos para acompanhar o novo modelo.
O CEO explicou que a Taas surgiu justamente para atuar nessa interseção entre tecnologia e tributação. Fundada no fim de 2022, a empresa foi estruturada para atender organizações que utilizam SAP e precisam adaptar seus processos fiscais e tecnológicos às novas exigências.
Na avaliação do especialista, conforme a reforma foi discutida, tornou-se claro de que o mercado teria duas demandas distintas. Uma relacionada aos processos de negócio e outra ligada à infraestrutura tecnológica necessária para suportar as novas regras.
PROJETOS INTEGRADOS
Jean considera que muitas empresas ainda não compreenderam que a reforma tributária demanda uma atuação integrada entre as áreas de tecnologia e negócios.
Ao comentar como observou o mercado durante 2025, Jean afirmou que a maior parte dos esforços esteve concentrada em preparar uma estrutura mínima para atender às primeiras exigências da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços). Segundo ele, esse trabalho consumiu boa parte do ano e foi muito mais complexo do que parecia inicialmente.
Ele explicou que o governo desenvolveu uma infraestrutura tecnológica moderna para suportar o novo sistema tributário. Já muitas empresas ainda operam com plataformas antigas, resultado de anos priorizando investimentos voltados apenas à continuidade das operações.
“O Fisco está trabalhando com uma plataforma tecnológica nova, com investimento de bilhões para a estrutura. Só que muitas empresas no Brasil vivem no modo de sobrevivência. Então a tecnologia que o Fisco está trabalhando muitas vezes é muito distante da tecnologia da empresa, do contribuinte“, disse.
Esse cenário, segundo Jean, fez com que boa parte dos projetos de 2025 se concentrasse em tarefas básicas de atualização tecnológica. Ele citou como exemplos a atualização das versões do SAP, a aplicação de pacotes de suporte, a migração para o S/4HANA e outras adequações necessárias para permitir que os sistemas estivessem minimamente preparados para receber os novos tributos.
ERP
Jean afirmou que a configuração do destaque de novos tributos no ERP (sistema de gestão empresarial, em português) muitas vezes é considerada como a conclusão de um projeto de reforma tributária. Ele disse que esse cenário é comumente encontrado nas organizações.
Segundo ele, muitas empresas limitaram o projeto à parametrização do IBS e da CBS dentro do sistema e à geração dos arquivos XML para testes, sem avaliar os impactos operacionais provocados pelo novo modelo tributário.
Para o especialista, quando as empresas começam a analisar os efeitos da reforma sobre processos internos, compras, vendas, fluxo financeiro e controles operacionais, percebem que a dimensão do projeto é muito maior. Segundo Jean, ainda existe pouca compreensão sobre o alcance das mudanças.
“Essa reforma tributária começa a ser uma caixinha de surpresa, porque ainda não há uma completude, um entendimento amplo do que ela impacta“, completou.
Na avaliação dele, o principal desafio passa a ser disseminar esse entendimento dentro das organizações. Embora considere que os profissionais da área tributária devam liderar esse movimento, Jean afirma que eles não conseguirão executar essa transformação sozinhos. Segundo ele, a reforma exige participação de praticamente todas as áreas da empresa.
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