
Por Nicholas Meira
Todo mundo quer contar como venceu. Quase ninguém tem coragem de contar como errou. E foi exatamente quando decidi contar os meus erros que descobri o artigo mais importante da minha vida profissional.
Deixa eu explicar como cheguei até aqui.
Passei mais de vinte anos no mundo corporativo. Construí carreira, ocupei posições de liderança, ajudei empresas a crescerem, a organizarem suas finanças, a enxergarem oportunidades onde só se via problema. Foram mais de duas décadas intensas, cheias de decisões difíceis, de metas ambiciosas e de vitórias que me encheram de orgulho. E quando decidi escrever o meu primeiro livro, Carreira Sem Limites, era exatamente sobre isso que eu queria falar. Sobre o caminho que deu certo.
O primeiro livro nasceu do orgulho, e não vejo problema nenhum nisso. Quis registrar as decisões acertadas, as estratégias que funcionaram, os princípios que me guiaram ao longo da jornada. Foi um trabalho importante, porque acertos merecem ser celebrados e servem de mapa para quem está começando agora e ainda não sabe qual direção tomar. Eu me sentia realizado ao ver aquilo publicado, como se estivesse deixando registrado tudo o que aprendi de melhor. Mas foi só quando comecei a escrever o segundo que percebi uma verdade incômoda: eu tinha contado apenas metade da história. E, para ser sincero, a metade mais fácil.
Porque é fácil falar dos acertos. Os acertos cabem bem em um perfil de LinkedIn, rendem boas fotos em eventos, ficam bonitos numa apresentação de resultados. O difícil, o realmente difícil, é olhar para trás e admitir onde a gente errou. E foi esse o desafio que eu decidi encarar quando escrevi Limites da Carreira.
Limites da Carreira, que hoje é best-seller e me enche de gratidão por cada leitor que o abraçou e por cada mensagem que recebo de quem se enxergou naquelas páginas, é um livro sobre os meus erros. Sobre as escolhas que eu faria diferente se pudesse voltar no tempo, sobre as vezes em que priorizei o que não deveria e paguei o preço por isso, sobre os momentos em que aprendi na dor aquilo que ninguém havia me ensinado antes. Foi de longe a coisa mais difícil que já publiquei, porque exigiu que eu tirasse a armadura que a gente carrega no ambiente corporativo, aquela que nos faz parecer sempre confiantes e no controle, e mostrasse a vulnerabilidade que a maioria de nós esconde a qualquer custo. Escrever aquilo foi um exercício de honestidade brutal comigo mesmo.
E aconteceu algo que eu não esperava. Foi justamente essa parte, a dos erros, que mais conectou com as pessoas. Muito mais do que os acertos do primeiro livro. E aí caiu a ficha de uma coisa que hoje me parece óbvia, mas que levei anos para entender: ninguém aprende de verdade com um currículo impecável. A gente não cresce ouvindo alguém dizer que fez tudo certo. A gente cresce, se transforma e evolui quando alguém tem a honestidade de dizer onde tropeçou, o que aquilo custou e, principalmente, o que fez para se levantar depois.
Foi aí que entendi o verdadeiro motivo de ter escrito esses dois livros. Não foi para deixar um monumento aos meus acertos nem para inflar o meu ego com uma lista de conquistas. Foi para deixar um legado honesto para as novas gerações. Um material onde o jovem profissional que está começando agora possa se enxergar, entender que errar faz parte do jogo, que ninguém constrói uma carreira relevante sem tropeçar algumas vezes no caminho, e que o erro só se transforma em fracasso quando a gente se recusa a aprender com ele. Se eu conseguir poupar alguém de tropeçar exatamente nas mesmas pedras em que tropecei, ou pelo menos fazer essa pessoa se levantar mais rápido do que eu me levantei, então cada página escrita valeu absolutamente a pena.
E é isso que eu quero deixar registrado, muito além dos livros. As novas gerações não precisam de heróis perfeitos para admirar de longe. Elas precisam de referências reais, de pessoas que caminharam antes e tiveram a generosidade de contar a verdade completa sobre essa caminhada, com luz e com sombra. Um mentor que só mostra suas vitórias não ensina, apenas impressiona. E impressionar é fácil, qualquer um faz. Formar, orientar e realmente contribuir para a evolução de alguém é outra coisa, e isso exige verdade.
Talvez o maior aprendizado de toda essa jornada como escritor seja esse: o legado que a gente deixa não está no que a gente conquistou, está no que a gente teve a coragem de compartilhar. E eu escolho compartilhar tudo, sem filtro e sem armadura, os acertos que me trouxeram até aqui e os erros que me tornaram exatamente quem eu sou hoje.
Então fica a provocação para você que chegou até o final. Quando for a sua vez de contar a sua história, seja para um filho, para um liderado, para um mentorado ou para o mundo, você vai ter a coragem de mostrar também a parte que dói? Porque é justamente ali, naquela parte que a gente prefere esconder, que mora o aprendizado que pode transformar a vida de alguém.
Nicholas Meira é tributarista com mais de 20 anos de experiência na área, atuando em multinacionis líderes globais de seus segmentos. Presidente na Comunidade Power Tax Brasil, uma comunidade tributária com mais 200 tributaristas, que representam mais de 120 empresas de diversos segmentos de mercado.
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